quarta-feira, 25 de março de 2009

Infância da Vida

Aí que saudades!
Do tempo
Que’u fazia estripulia
Corria no quintal de terra
Comia goiab’i’laranja das árvore que ali tinha
Da minha’vó me dizendo:
- Não corre atrás das galinha!
Dos quitutes saborosos, que a mãe da mamãe fazia
Das castanha-de-sapucaia
Docinhas, docinhas
Da voz dengosa e suave da minha tia e vizinha
Das brincadeiras na rua
Das curica solta à brisa
Da mesa cheia de gente
Da casa nunca vazia
Aí de mim, se matasse
Saudades ter de alegrias
A sete palmos, há tempos, com certeza eu estaria.
Aí que saudades eu tenho da minha
Infância vivida.

27/07/07
Bruno Luan Teixeira Barreto

O mendigo

- Dá u’a’juda aí patrão!
- Quê?!
- Ajuda um pobri coitado...
- Toma!
.......................................................
Tilintar de níqueis e apressar de passos na calçada.

27/07/07
Bruno Luan Teixeira Barreto

Trabalho noturno

Lua plena (vigia-me)
Café, café, café...
Deveres-de-casa
Máquina-de-escrever:
T R A B A L H O D E H I S T Ó R I A
(Introdução)
(Desenvolvimento)
(Conclusão)
Lembrar de esquecer (sem querer)
Bocejos, bocejos, bocejos...
Analgésicos
Sono (sem sonhos)
Mau-humor pela
Manhã.

27/09/07
Bruno Luan Teixeira Barreto

Sinestesia

O toque gélido do
Nervosismo arrepia-me os pêlos.
Estremece-me os dedos tortos e suados
E a vertigem me confunde os sentidos

A brisa ardente do
Sussurro atiça-me os
Instintos
E o vermelho-sangue mancha-me
A face em chamas dançantes
Ao som doce, levemente rosado
Pelo Sol poente do
Coração-brasa-sonhador

O toque silencioso
Pele na pele
Queima-me todo
Em tons rubros
Flamejantes
Atenuados pelas cores frias da
Lua
Lua – exímia observadora
Das paixões multicoloridas.

20/09/07
Bruno Luan Teixeira Barreto

Reza de pé no chão

Reza contrito
Com muita fé
Reza:
- Ó! Meu Jesus di Nazaré!
Reza com muita fé:
- Pai Nosso que’stais nu cér...
Reza o terço:
- Ave Maria...
De mãos cintas
De mãos dadas
De joelhos
De pé:
- Onde houvé dúvida qui eu léve a fé!

29/08/07
Bruno Luan Teixeira Barreto

O Vento

Leva consigo as mágoas póstumas ou ainda viventes
Guia a vida à
Luz ao
Abismo escuro
Afaga
Conforta
Ressuscita lembranças
Conduz a chuva
Renova a vida, levando os restos da
Morte inertes na terra fria

02/05/07
Bruno Luan Teixeira Barreto

Rosa

Imóvel
Observa-me
Linda (observa-me)
Observo-a
Rosa
Clara do jardim
Perfumada (perfuma-me)
Frágil
Leve
Rosa (rosa-me)
Com suas pétalas mosqueadas de orvalho brilhante
Com os fúlgidos
Carinhos dos raios
Solares.

05/10/07
Bruno Luan Teixeira Barreto

quarta-feira, 18 de março de 2009

Fals’Aurora

Embora agora
Eu vá embora:
- Vou-me’mbora!

Outrora o agora
Era’aurora
Sorrias linda
Linda Aurora

Ora mato
Ora rosa
Ora são
Ora ferido
- Vou-me’mbora!
Agora Aurora
Morta fria
Sem sorrisos

Ora pedra
Ora veludo
- Vou-me’mbora!
- Vou-me agora!

- Ora bolas!
Linda Aurora
Tu que outrora partia
Meu amor puro e singelo
Ora Deusa
Ora Porca
- Vou-me’mbora desse inferno!

21/08/07
Bruno Luan Teixeira Barreto

Sobressaltos

De sobressalto empunho
O grafite desgastado
Então somente
Escrevo:
A musicalidade
A informalidade
Ao patriotismo
A verdade

De sobressalto
Vem-me o sobressalto
Então empunho
O grafite desgastado
A escrever os sobressaltos
Que me vem.

27/07/07
Bruno Luan Teixeira Barreto

Morte a morte

Da tristeza fez-se
O pranto
Da vingança fez-se o ódio
O ódio – irmão da morte
A morte – que mata e come, sem ver quem vê pela frente

E da vida fez-se de súbito
O pó
Do campo fez-se
O deserto só
Da brisa fez-se
O vento que matou a plantação

Do sustento fez-se
A grana
E da grana fez-se
A gana – prima da’mbição
Ambição dos ricos homens que
Queimam
Matam e
Comem
A vida viva do chão

E da tristeza fez-se
O pranto
E do pranto fez-se
O canto
Triste da santa cruz.

26/08/07
Bruno Luan Teixeira Barreto

Alguma Poesia

Lá d’altura do colosso de concreto
Observo o trânsito dos carros
Lentamente vão andando um pouco
Vão fugindo do sinal fechado

Vejo as luzes noturnas da cidade
Vejo ao longe o templo dos patetas
Penso em tantas rimas, tantos versos
Penso em tantas composições poéticas

Mas se me punha a escrever o que pensava
Tudo me escapava, me fugia
Queira Deus que em toda a minha vida deixe aqui
Alguma poesia.

29/08/07
Bruno Luan Teixeira Barreto

Fusão da tarde

Eram vozes, e não ruídos que me incomodavam
Miscigenação vocal na sala
Olhava o tempo fixamente
E as nuvens, acetinadas pelo sol, flutuavam majestosas
O calor era insuportável (todos suportavam-no reclamando):
- Tá muito quente...pelo amor de Deus!
Ao longe os operários martelavam
Martelava também eu, aflito:
Bate campa
Bate logo
Que eu num
Guento mais
A aula
Desse professor
Cansado
Passa tempo
Passa logo
Que eu me quero
Ir pra casa.

Chuviscou aquela tarde, quente como todas as outras tardes.
A tarde uniu-se a noite
E a noite assassinou-a
Friamente

Bruno Luan Teixeira Barreto